• Fabiana Saraiva

Como nadar contra a corrente quando o rio é estreito


Sempre fui muito segura do caminho que queria seguir profissionalmente. Entendi, muito nova até, que eu precisaria mirar longe para contribuir efetivamente com mudanças sociais, minha grande paixão. Não sou de família abastada, pelo contrário, e por conta disso determinação e resiliência estiveram sempre comigo. Estudei, me formei e encontrei a minha porta de entrada no mundo corporativo: um programa de estágio. O que eu não sabia (e que ninguém havia me contado) é que os próximos degraus seriam tão desafiadores.

Há oito meses, estava em uma sala ampla com mais algumas dezenas de pessoas para um processo seletivo para um programa de trainee na empresa que trabalho. A força de vontade eu já tinha. A oportunidade aconteceu. Bingo, minha definição de sucesso estava um passo mais perto de mim. Após três anos na área de comunicação, queria migrar para marketing há um tempo e essa era a minha chance.

É comum nos processos seletivos ter aquele momento de apresentações. "Passei dois anos na Austrália estudando". "Sou fluente em alemão, francês, espanhol e inglês". "Fiz um curso de cinema na escola tal". Intercâmbios, idiomas, certificados e vivências internacionais. O que nos faz sempre pensar em: como vou me destacar? Muitos candidatos já tinham alcançado "itens" que estavam na minha lista, mas que eu sabia que só poderia ter a chance de riscar dela daqui uns dois anos. Ou cinco. Ou um pouco mais que isso.

Não gosto de me vitimizar. Essa definitivamente não sou eu. Mas devo confessar que, naquele momento, um dos meus principais medos me assombrava: o fracasso – antes mesmo dele acontecer. Ou, como minha mãe sempre me diz quando algo não dá certo: "filha, você não fracassou, as coisas só não saíram do jeito que você esperava".

Ela, sem dúvidas, é minha maior inspiração, além de ser minha maior "fã". Me incentiva não somente a tirar boas experiências dos "insucessos", mas a aproveitar toda e qualquer experiência que achava que não tinha valor.

Tive mais de um emprego durante o período da faculdade que não era da área. Um deles foi em uma padaria de um supermercado. No começo achava que era apenas para pagar as contas, mas, com o tempo, percebi que foi ele que me ajudou a lidar com o público e entender as pessoas, ter empatia com o outro. O mesmo aconteceu com o meu período em comunicação, que acabou se tornando para mim o meu diferencial no lugar dos "extras" que os outros candidatos tinham. Demorou, mas percebi que é muito legal quando o seu caminho não acontece do jeito que você desenhou e você começa a criar desafios para si que não criaria normalmente.

Foi então que na sala com mais todas aquelas pessoas, lembrei das palavras da minha mãe e acreditei que se não conseguisse aquela vaga, seria mais um aprendizado importante pra mim, mais uma experiência. Fui eu mesma, a Fabi que estudou em um colégio público, que não tinha estudado em escolas "renomadas" ou viajado para o exterior. Mostrei que meus valores eram os mesmos da empresa e que estava ali para agregar com todos os meus sucessos (ou não). Deu certo! E a partir daí, consegui dar mais um passo em direção ao meu tão sonhado futuro.

Ser o meio

Diferente de algumas pessoas da minha faixa etária, nunca tive vontade de trabalhar em uma startup, fintech ou empresas que vemos em alta ultimamente. A maioria quer se desvincular de instituições tradicionais porque acredita que não terá o mesmo espaço para transformar do que em uma empresa com "DNA jovem".

Pensei em ser diretora de criação publicitária, mas antes mesmo de chegar a trabalhar com isso, vi que meu grande sonho era trabalhar em uma empresa. Estar ali pela estabilidade, hierarquia...? Não. Na verdade, sempre militei em relação às minhas causas e depois de um bom tempo investido, cheguei à conclusão de que vozes precisam de agentes transformadores. Muitas vezes uma ONG ou coletivo não tem a força ou apoio necessário para seguir adiante em uma luta. E eu quero ser essa força.

Desde que entrei na empresa que estou atualmente como estagiária, vi uma oportunidade não só de mudar de área, mas poder unir a causa ao meio. Hoje, quando desenvolvo estratégias para um projeto específico, penso comigo mesma: "como mostrar um benefício claro para o negócio e movimentar meu coração?".

A resposta é transitar entre as áreas e ter a mesma empatia que tinha com os clientes da padaria. Quando você compreende o trabalho do outro e sabe seus desafios, é muito mais fácil encontrar um caminho que beneficie as duas partes envolvidas.

As pessoas têm a impressão de que estar em uma empresa é seguir um ‘modus operandi’ predeterminado, sem possibilidade de mudanças. Vejo a carreira nestes lugares como um rio, que mesmo estreito, todos os desafios que ele apresenta e seu o fluxo constante, eu nado. Pouco a pouco, vou em direção contrária à corrente. Aprendi que o rio tem um curso, mas ele pode ser desviado. Aprendi e estou cada dia mais aprendendo. Posso dizer definitivamente que a Fabi de hoje não é a mesma de oito meses atrás. Assim como espero que tenha contribuído para a empresa ter evoluído junto comigo.

A Fabi de hoje juntou todos os obstáculos já enfrentados e os transformou em diferenciais, para um dia alcançar o que vejo como sucesso. Hoje eu quero ser o meio para trazer muda

nças ao mundo e incentivar outros jovens a fazerem o mesmo. Estamos todos #JuntosNessa para inspirar futuras gerações. E para termos, lá na frente, corporações que dialoguem com os nossos ideais e que nos representam de verdade.

– E você, como faz a diferença?


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