• Aaron E. Carroll

O suicídio entre adolescentes pode ser prevenido por medidas baseadas em dados


Autoridades federais da saúde informaram este mês que as taxas de suicídio entre adolescentes continuam a subir, sendo que as taxas entre as meninas são as mais altas dos últimos 40 anos. Uma resposta racional seria tomar medidas baseadas em dados para tentar reverter esse rumo. Muitas vezes presumimos que não há nada que possamos fazer.

Às vezes, até mesmo pioramos as coisas.

As taxas de suicídio eram ainda mais altas nos anos 1990. Mas, entre 2007 e 2015, as taxas subiram de 10,8 para 14,2 por 100 mil adolescentes homens e de 2,4 para 5,1 por 100 mil adolescentes mulheres. Em 2011, pela primeira vez em mais de 20 anos, mais adolescentes morreram por suicídio do que por homicídio.

Mas essas tendências são conhecidas há anos. Nossa resposta a elas não reconheceu sua progressão de forma adequada.

Existem formas de se prevenir o suicídio com base em dados. A Organização Mundial de Saúde tem um guia sobre como profissionais da mídia devem falar sobre o assunto. Eles devem evitar sensacionalizá-lo ou normalizá-lo.

Devem tomar cuidado para não repetir relatos de suicídio ou fornecer descrições explícitas sobre como o suicídio pode ser tentado ou realizado. Devem dar as manchetes com cuidado, e evitar vídeos ou fotos dos suicídios ou das vítimas.

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças também têm um guia baseado em dados sobre como prevenir o suicídio. Existem coisas que o governo pode fazer, inclusive fortalecer apoios financeiros, certificando-se de que as famílias estejam mais seguras financeiramente e possuam uma moradia estável.

O sistema de saúde precisa fortalecer o acesso e o fornecimento de tratamentos de saúde mental, bem como melhorar nossa habilidade de identificar e apoiar adolescentes em risco.

Existem coisas que nós, como sociedade, também podemos fazer. Precisamos criar um ambiente mais seguro para os adolescentes, o que inclui reduzir seu acesso aos meios que eles provavelmente usariam em uma tentativa de suicídio.

É importante também, só que mais difícil, promovermos a conexão e restringir o isolamento. A melhor coisa que podemos fazer por adolescentes em risco é evitar que eles se isolem dos outros.

Nós não temos conseguido mesmo atingir esses objetivos no que diz respeito à mídia, às armas e à comunidade.

A discussão mais pública em torno do suicídio este ano se centrou na série da Netflix "13 Reasons Why", uma adaptação do livro de mesmo nome. Defensores da série argumentam que o programa chamou atenção para o suicídio adolescente, e que ele provocou mais discussões sobre o assunto, o que seria algo bom.

Mas muitos especialistas ficaram preocupados com a possibilidade de a série glamorizar o suicídio. Eles ficaram especialmente preocupados porque os produtores optaram por mostrar o suicídio em uma longa cena de três minutos, onde a protagonista corta os pulsos em uma banheira. No livro, ela morre por overdose de comprimidos, e a "cena" do suicídio não é descrita.

Pesquisas mostram que quando a mídia foca no suicídio de uma celebridade do meio artístico ou político, o efeito de contágio é muito mais amplo. Isso acontece de forma ainda mais crítica quando a mídia foca na forma como o suicídio ocorreu. É verdade que o efeito é menor quando o suicídio é fictício, mas mesmo assim, ele está associado a um aumento de mais de quatro vezes no efeito de contágio.

Recentemente, pesquisadores publicaram um estudo que examinava o aparente efeito da série sobre buscas na internet sobre suicídio. A série "13 Reasons Why" gerou mais de 600 mil notícias. Nos 19 dias após seu lançamento, as buscas sobre suicídio foram cerca de 19% mais altas do que o esperado.

Como era de se esperar, algumas buscas por assuntos como "telefone de apoio para suicidas", "prevenção de suicídio" e "suicídio adolescente" aumentaram. Mas também aumentaram as buscas por "cometer suicídio", "como cometer suicídio" e "como se matar". Os efeitos a longo prazo disso não estão claros, mas certamente são preocupantes o suficiente para serem monitorados.

Nossa incapacidade de tratar da questão das armas tem um custo. Ocorrem cerca de duas vezes mais suicídios anualmente com o uso de armas (mais de 21 mil em 2014) do que homicídios com o uso de armas. Quase nenhuma das armas usadas em suicídios são fuzis de assalto, e ainda assim esse parece ser o único foco dos ativistas. Em cerca de 45% dos suicídios entre pessoas com idade entre 15 e 24 anos, foram usadas armas.

Aqueles que podem argumentar que as pessoas que queiram se matar encontrariam outras formas, se limitássemos seu acesso a armas, ignoram os dados sobre suicídio. Pesquisas mostram que a maior parte dos suicídios é impulsiva.

Estudos sobre pessoas que quase morreram por tentativas de suicídio, mas sobreviveram, mostram que cerca de um quarto delas passou da decisão de se matar até fazer a tentativa em menos de cinco minutos. Quase três quartos delas levaram menos de uma hora.

Ter acesso a uma arma pode fazer uma grande diferença, porque elas são devastadoramente eficientes. Tentativas de suicídio com armas são bem-sucedidas em mais de 85% das vezes; tentativas por overdose ou envenenamento dão certo em menos de 2% das vezes. Meta-análises mostram que o acesso a uma arma de fogo aumenta a probabilidade de um suicídio ser bem-sucedido em mais de três vezes.

Embora possamos debater os méritos relativos de se facilitar ou dificultar a posse de uma arma, está claro que as armas deveriam ser mantidas longe do alcance de crianças.

Por fim, estamos permitindo que os adolescentes se distanciem mais dos outros. O estudo da "Monitoring the Future" vêm analisando os comportamentos, atitudes e valores de alunos americanos do ensino médio há décadas. Puxei dados de seus arquivos de 2007 a 2015, olhando especificamente para os alunos de último ano.

Em 2007, somente 25% deles disseram ter saído em encontros uma ou menos vezes por mês—três quartos dos alunos eram mais sociais do que isso. Em 2015, a porcentagem de pessoas que disseram sair em encontros uma vez ou menos por mês havia aumentado para 36%. Em 2007, a porcentagem de pessoas que disseram sair para se divertir e por lazer uma ou menos vezes por semana era de 46%. Em 2015, esse número havia aumentado para 59%.

Em um artigo para a "Atlantic" e em seu novo livro, Jean Twenge argumenta que os smartphones e as mídias sociais desconectaram os adolescentes da sociedade. Outros temem que a internet em geral também possa estar fazendo o mesmo ou aumentando o potencial para o bullying sem repercussões imediatas. Não tenho certeza se podemos colocar tanta culpa na tecnologia como estão fazendo, mas todos esses dados são um forte argumento de que os adolescentes estão mais isolados e em maior risco do que antes.

Precisamos falar sobre suicídio de formas que ajudem, e não prejudiquem. Precisamos nos certificar de que os jovens não tenham acesso a armas. E precisamos nos certificar de que eles estejam suficientemente conectados uns com os outros, com a família e com o sistema de saúde, de forma que aqueles que estejam em risco possam ser reconhecidos e receber o cuidado de que precisam.

O aumento no número de ocorrências que não devemos ignorar esse problema, ou fingir que é simplesmente difícil demais.


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