• Sandra Lesbaupin

A Escolha da Instituição como Parte da Escolha Profissional


O fator Instituição

Já discutimos diversos temas associados à escolha profissional nesse blog: adolescência e juventude, influências dos pais, das redes sociais, a dúvida e a cara das profissões, atividades que auxiliam na escolha e tantos outros. Hoje, porém, permito-me anunciar mais um dificultador da escolha profissional, frequentemente desconsiderado: a instituição.

Sim, há outra escolha a se fazer. Sei que ninguém combinou isso com você, mas ela é também muito importante. Pergunte a si mesmo: “qual instituição de ensino vou escolher para, juntos, formarmos uma boa parceria em busca de uma formação profissional de qualidade para mim mesmo?”

Mais uma vez, a contemporaneidade nos apresenta uma diversidade de alternativas. Provavelmente, o número de universidades no Brasil que oferecem o curso que você escolheu para se formar já ultrapassou os dois dígitos. Sem falar no crescente acesso à formação profissional no exterior. O cenário é tão diverso e democrático que cansa só de imaginar. E, frequentemente, não investimos tempo nem atenção nessa seleção.

Em minha prática profissional, percebo jovens recebendo todo tipo de informações sobre as instituições de ensino superior, mas sem orientação a respeito do que fazer com elas. Assim, muitos poucos percebem que a escolha da instituição é também uma escolha. Poucos se dão conta que há opções, pois compram sem reflexão a ideia clássica (cultivada pelas filosofias de seus pais, avós e dos cursinhos pré-vestibulares) de que existem escolas e cursos “de excelência”, infalíveis na promoção de satisfação acadêmica, vagas de emprego e sucesso profissional. Os jovens, então, focam nessa instituição “de excelência” e automaticamente descartam as demais opções.

Oras, com tanta pressão para decorar aquela fórmula de Física, ler as doze obras clássicas indicadas para as provas ou treinar os macetes de como dedicar exatos 2 minutos e 47 segundos para cada questão de múltipla escolha, como esperar que esses jovens reflitam sobre qual é a melhor universidade para cada um deles? Para suas necessidades, condições, facilidades e dificuldades, personalidade... Para satisfação de seus sonhos e desejos, para a realização do seu projeto de vida…

Projeto de Vida

Ao conhecer o seu perfil e definir as suas metas e o seu projeto de vida, você pode se apropriar não somente da escolha da profissão e carreira, mas também ter melhores condições para compreender se o ambiente no qual passará boa parte de seu tempo nos próximos anos é, de fato, o melhor lugar para você. Por exemplo, um jovem que tenha planos de morar fora do país deve buscar instituições que tenham parcerias de estudo e estágio no exterior; outro que vise um concurso público deve prezar pela formação geral na sua instituição, mais do que a formação na área escolhida especificamente.

E por aí vai. São muitas as perguntas que se deve fazer às instituições. Melhor uma faculdade ou uma universidade, no meu caso? A distância é um fator limitante para mim? E o custo? Há possibilidade de estágio na própria instituição? Buscas em sites, opiniões de quem já estudou naquela instituição ou visitas guiadas pelos colégios aos campus universitários ajudam (mas lembre-se que sempre apresentam vieses da realidade. O que vale para o Pedro pode não valer para você…)

Ao vivo e a cores

Adentrar na universidade e conhecê-la funcionando como ela é, sentir seu cheiro, esbarrar nas pessoas que frequentam aquele espaço, pedir informações ali, tomar um lanche na cafeteria, estar só e inteiro naquele espaço - isso é fundamental e completamente diferente das informações que você pode descobrir sentado na sua escrivaninha! No programa de orientação profissional desenvolvido pela TransformAção, discutimos e planejamos com nossos clientes como visitar os cursos, assistir a algumas aulas, sentir a vibe do ambiente e avaliar alguns critérios importantes para uma boa escolha institucional.

Tais critérios foram cuidadosamente elaborados ao longo de anos de trabalho e com base em relatos de pessoas que me contavam onde, como e porque se sentiam fracassadas na sua relação com a instituição, não raro aquela escola defendida por todos como a melhor para se estudar. Cada ser humano é único e a escolha da instituição tem a ver com o seu perfil e com os seus objetivos. Há muitos critérios a se levar em conta nessa escolha, e o autoconhecimento é a melhor forma de identificar quais são os seus critérios, ou aquilo que é importante para você.

Marcou-me profundamente o relato da experiência clínica de um colega, também psicólogo e orientador profissional, com um rapaz que, após seis anos de cursinho, finalmente foi aprovado num famoso e bem avaliado curso público de Engenharia. Oito meses depois de ingressar na faculdade, esse rapaz procurou psicoterapia com sintomas de ansiedade e depressão. Esforçou-se muito para estar naquela faculdade, investiu 6 anos da sua vida para chegar lá, mas não se adaptou aos grupos de pessoas que ali estudavam, às rotinas das aulas e surpreendeu-se com a falta de infraestrutura básica em alguns laboratórios (o que frequentemente ocasionava a suspensão das aulas e a não reposição do conteúdo na sequência do curso). Meu colega, o profissional que o atendeu, indagou o rapaz se já havia visitado aquele local antes de ser aprovado no vestibular e, com expressão de surpresa nos olhos, ele lhe respondeu com perguntas: era possível? Como?

Infelizmente, esse jovem não é o único a acreditar que a universidade é como um templo sagrado de acesso restrito somente após a efetivação da matrícula. Mitos como esses são criados e alimentados em nossa cultura, por diversos motivos e interesses e em todas as áreas da vida. E, para além dessa falta de informação, há também as idealizações que criamos em torno daquilo que não temos - e que muitas vezes nos esforçamos muito para conseguir. Quanto maior a dificuldade em ingressar na instituição, melhor ela parece ser. Melhor para quem?

O que nos importa aqui não é suspender a criação desses mitos e idealizações, mas reforçar que temos, sim, alternativas aos caminhos que nos impõem como únicos e corretos. Temos, sim, a possibilidade de experimentar ao vivo e a cores parte de nossas idealizações. Afinal, se antes de escolher coisas simples da vida (como um par de sapatos, o sabor do sorvete) você as experimenta, por que você não faria isso com algo tão importante quanto a sua parceira de formação profissional?

Inspirado em “Profissão, carreira e você: afinal, quem escolhe quem?”,

de Ricardo Lima (não publicado).


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